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sábado, 20 de novembro de 2010

LabHum - Uma turma especial


LabHum - Uma turma especial
Upload feito originalmente por Yuri Bittar

O Laboratório de Humanidades é um "curso" muito especial, com participantes incríveis! Aqui se aplica um conceito de ensino-aprendizagem totalmente inovador, usando a literatura e a discussão livre como fatores e uma formação humanista e humanizada. Fico muito feliz com os resultados! O LabHum é meu trabalho, minha pesquisa e onde encontro meus amigos!

Fotografia feita na última reunião, em 19/11/2010, coordenada pelo Prof. Dr. Rafael Ruiz

Agradeço a todos os presentes!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Um cão que humaniza?


Joe Spencer, O Amicão 01
Upload feito originalmente por Yuri Bittar

Em 17 de setembro de 2008, acompanhei um "terapeuta" em sua visita ao Hospital São Paulo. O nome desse profissional, que é voluntário, é Joe Spencer, um Golden Retriever muito simpático e paciente, que neste dia levou um pouco de esperança, distração, enfim, um pouco de luz nos dias sombrios desses pequenos que, na idade de estar na rua correndo atrás da bola estão numa cama de hospital.

Veja mais fotos: http://www.flickr.com/photos/yuribittar/sets/72157623728090603

Para mim, como fotógrafo, foi um privilégio essa oportunidade de registrar alguns momentos de felicidade sincera das crianças. É incrível como o hospital vai parando conforme Joe passa. Funcionários, paciente, médicos, visitantes, enfim, todos param para ver, isso porque Joe é lindo, simpático, e as pessoas também se surpreender ao ver um cão dentro do hospital.

Por que lembrei disso agora? Estou preparando um novo curso de fotografia, que terá a humanização como foco, e um dos usos importantes da fotografia é no registro dessas ações humanizadoras, que assim podem alcançar um maior número de pessoas.

O Projeto Joe, o Amicão, coordenado por Angela Borges e Luci Lafusa, é algo de importância e e beleza extraordinárias.

Na tentativa de descontrair o clima do ambiente hospitalar e ambulatorial elas criaram esse projeto que realiza, especialmente ás crianças, que resultam em melhora no ambiente , companhia, sensação de bem-estar, além do vinculo de amizade entre os animais e pacientes.

Isso leva á um círculo virtuoso, funcionários e médico também se sentem melhor, outros voluntários estão se associando ao projeto e mais portas vão se abrindo.

Para saber mais sobre o projeto contacte as coordenadoras:
(11) 9674.0429 ou angela.vitoria@unifesp.br

quarta-feira, 31 de março de 2010

Mãos que humanizam


Mãos que explicam
Upload feito originalmente por Yuri Bittar

Mãos que explicam
Mãos amigas
Mãos que come-moram
Mãos que ajudam
Mãos que veem

A partir do LabHum iniciei uma reflexão fotográfica sobre o poder de expressão e do potencial humanizador das mãos. Veja as fotos: http://www.flickr.com/photos/yuribittar/sets/72157623610969133

segunda-feira, 29 de março de 2010

Comemoração no LabHum

Comemorar. Comer e memorar? Ou co-memorar, ou seja, lembrar juntos? De qualquer forma o momento de celebrar juntos uma data especial ou o simples fato de estarmos vivos, é sempre um momento humanizador. E o Laboratório de Humanidades é mesmo um espaço privilegiado de humanização. Além de conversar, refletir, aprender, também praticamos o "comemorar"

No último encontro, dia 26/03/10, comemoramos o aniversário do coordenador, Prof. Dante. Foi uma festa surpresa sem surpresa! Cada participante poderia levar um doce, salgado ou bebida, que no final até sobrou.

LabHum 26/03/10


Segundo o Prof. Dante, "a refeição será sempre uma das formas mais recorrentes de congregação, de transmissão de idéias, valores, verdades, de comemoração." E mais ainda, a "refeição existe para alimentar o corpo, mas não apenas de comida. Uma verdadeira refeição deve antes de tudo alimentar os sentidos"

Veja o artigo "A desumanização do comer" completo:

Obrigado à todos que estiveram lá, e os que não puderam ir, sintam-se também parte da festa!

Abraço!
Yuri Bittar
Designer, fotógrafo e historiador
Atualmente ministra o curso A fotografia e a Cultura Visual
Site pessoal: www.yuribittar.com

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A importância do Laboratório de Humanidades

Escrito por Yuri Bittar*, monitor do LabHum, com reflexões de todo o Laboratório de Humanidades

Buscando visões externas sobre o LabHum procurei ter um referencial sobre a importância da atividade e portanto da importância desta ser estudada. Fiz essa avaliação sob diferentes aspectos e para ter uma idéia da visão dos próprios participantes solicitei a eles, via grupo de discussão, que respondessem a questão “Qual é, para você, a importância do Laboratório de Humanidades?”. Leia abaixo algumas respostas:


• Para mim, uma oportunidade de abrir horizontes intelectuais, afetivos e sociais - aliás, para mim, horizontes sociais e afetivos são sinônimos. Faltavam-me meios de ampliar o horizonte intelectual, e o LabHum me ofereceu isto.
Ambiente: Os participantes têm o humor fino da inteligência aguçada. Suas observações são pertinentes e profundas.
Direção: O Prof. Dante é um humanista e grande ser humano, se é que se pode dizer ou definir, ou mesmo encontrar tal faculdade nos seres humanos, hoje!!
Material: A escolha dos livros é sensível e direta no alcance da discussão de valores humanos fundamentais.
Enfim, o LabHum é um espaço de inteligência e sensibilidade, que faltava totalmente em minha vida desde minha adolescência no curso Clássico do Colégio de Aplicação da Faculdade de Pedagogia da USP (anos 62 a 65) onde o fulcro da educação era o aguçamento da faculdade crítica. O programa pedagógico era articulado pela Profa. Dra. Maria de Lourdes Gianotti, a querida Dilu do Departamento de História da USP. que também foi professora do Dante. Será apenas alguma coincidência o fato de Dante ter se dedicado a uma tarefa tão brilhante como o faz, e da forma como o faz? Pergunta em aberto...
Esse espaço se perdeu na vida atual, creio eu, e é uma jóia rara poder participar dele. Reverencio e sou muito agradecida muito ao Dante ter permitido a mim e ao grupo social essa abertura e oportunidade ao nosso convívio. Isto Yuri, quando uma oportunidade dessas é aberta, ela tem reflexos sobre todo o entorno social, afetivo e intelectual da coletividade, e a tendência é que esses reflexos se ampliem, cada vez mais, em seu vetor de melhoria do mundo.
Obrigada por seu trabalho, Yuri, e muito sucesso em seu esforço e trabalho construtivos, puros, dignos.
E.C.H.

• Para mim, o Laboratório de Humanidades é um lugar de "formação" de inquietos, um lugar de desadequação.
T.G.B.

• É muito bom ver um laboratório cujas "cobaias" são as próprias pessoas. Só que ele atua ao contrário: faz com que nos auto-experimentemos, nos descubramos, descubramos as outras pessoas, identifiquemos, o que nos une o que nos distancia, nos diferencia, nos iguala e tantas outras coisas....
O LabHum me mostrou a tolice que fiz algum tempo atrás: fazer arte-terapia porque começaram (na universidade de Pernambuco) a me fazer crer que eu era doida por fugir ao modelo que ela impunha. È claro que não continuei né?
Em 2007, conheci o Prof. Dante em um evento da UNIFESP. Tão suave. E passei a "seguí-lo", que nem se faz hoje no Twitter. Então vi que eu não era louca coisíssima alguma. eu era feliz e não sabia. O que estavam querendo era "me enquadrar".
Depois conheci o Prof. Rafael: de início, ele me intimidou. Ele tem uma aura de poder que, talvez, nem perceba. É desafiadora por ser intimidante. Sabe o que aprendi com isto? Esperneie, resista aos enquadramentos ou pereça. Com o tempo, vi que, de perto, ele é normal. E ele estimula, na gente, esse sentimento.
Eles dois são meio assim: o coração que também raciocina. O balanço entre os dois é o ideal.
acho que é isso, deu pra sacar alguma coisa?
R.B.

• O laboratório de humanidades se tornou uma parte muito especial da minha vida, nunca imaginei que fosse gostar tanto de uma "disciplina de mestrado" como esta. Provavelmente, por eu não conseguir considerar uma disciplina, não que eu não aprenda nada, acho que é o lugar que mais aprendo, mas por não ter as características básicas de aula.
Não existe cobrança e nem disputa (entre aluno e aluno e/ou aluno e professor), posso ser eu mesma, falar o que penso....pena que só descobri agora, mas ainda bem que eu descobri vcs!
E hoje tenho a consciência de que não sou mais um peixinho fora d'água nessa universidade.
M.J.

• Minha resposta vai parecer lugar-comum dentro de todo o repertório do qual falamos nos e dos encontros de sexta-feira. Mas, sinceramente, o Laboratório de Humanidades foi o remédio que eu estava à procura, no momento em que eu mais precisei. Todavia, ele continua sendo necessário. Provavelmente, porque não é que eu seja ou esteja doente, mas porque é algo do qual a minha existência humana não consegue viver sem: a experiência de ser o humano ou, de como ouvimos sexta-feira passada, de sermos redundantes.
Foi revivendo leituras, e das leituras revivendo experiências da vida que já passou, ou experimentando coisas novas para o hoje e o amanhã que vivo a redundância de ser eu mesma e de ser o outro.
Esta identificação e/ou contraste comigo mesma e com o outro que me é tão necessária é o que de tão importante o Laboratório de Humanidades me deu e que o faz especial pra mim.
S.S.

• Quis participar do laboratório desde 2006, quando ingressei na Unifesp, pela proposta de leitura de clássicos da literatura na hora do almoço.
Mas, vindo para o Campus Guarulhos, iniciando expediente às 13 horas, não foi possível.
Felizmente o laboratório continuou, cresceu e hoje tem, até, o "Blog do LabHum"; e hoje ainda posso participar.
Parabéns pelo LabHum!
M.O.

• O Laboratório é um lugar que cuida da alma. Representa para mim um momento de deleite, de prazer, de encontro. É um grupo sério sem ser carrancudo; ousado sem ser pretensioso; constituído por pessoas divertidas, emocionadas e emocionantes!!!!!
C.

• Eu trabalho num depto administrativo do HSP há 12 anos e já tinha ouvido falar no Laboratório, mas foi somente este semestre que resolvi entrar e acho que foi umas das melhores coisas que me aconteceram este ano. Mudei muito a minha forma de lidar com os livros e isso foi muito rápido a meu ver. Sempre gostei muito de livros mas não conseguia ter ritmo de leitura. Agora que existe um grupo muito acolhedor, ler e compartilhar traz muita satisfação. Tanto isto é verdade que já estou lendo até outros livros, simultaneamente...
E sabe o que mais: acho que minha última desculpa para "adiar" o mestrado perdeu o sentido. Já estou começando a pensar por onde devo começar...
Enfim, tive que faltar na última aula, e agora vem o feriado, já estou com muita saudade, ainda bem que temos este espaço aqui...
L.N.

• O laboratório é um lugar de construção e "des-construção" de sentimentos. Nunca imaginei que poderia encontrar um lugar como esse aqui na UNIFESP, ainda bem que não perdi a esperança e achei...
I.O.A.

• Em poucas palavras posso dizer que o LabHum representa um local em que não nos sentimos sós, onde podemos compartilhar nossas idéias com simplicidade e sem medo de críticas ou julgamentos. Trata-se de um espaço em que realmente podemos aprender o que significa Humanismo na prática, onde nossos dilemas do dia-a-dia adquirem significado.
M.A.C.B.

• O LabHum é um local, e um tempo, onde podemos exercitar nossa humanidade ( nossa força, nossa fragilidade, etc...), sentindo-nos acolhidos e respeitados. Podemos ouvir o outro e, às vezes ( muitas vezes), nos identificamos com ele e, em outros momentos, através da fala do outro, fazemos novas descobertas. Algo sempre acontece, em mim, nos nossos encontros semanais: algum movimento "interno", alguma nova idéia. É uma sensação de bem estar geral.
M.C.J.M.

• O Laboratório de Humanidades para mim é um espaço (físico, mental, emocional e todos estes juntos, enfim... que me anima a viver as minhas idéias com alguma tranquilidade, embora fazendo muita força para sobreviver em decorrência delas próprias.
E.A.S.

• Para mim o Laboratório de Humanidades é um espaço de auto conhecimento. Lá é onde podemos entrar em contato intimo com elementos essenciais formadores de nossa personalidade (entre outras coisas). Para mim, esta funcionando como terapia uma vez que, sempre procuro em mim mesmo, todos os defeitos e virtudes levantados nas discussões. É simplesmente MARAVILHOSO!
C.V.

• O laboratório de humanidades é muito mais que um laboratório é um encontro comigo mesma, uma lição de vida, lá temos a oportunidade de conhecer pessoas, discutir o que quisermos não tem protocolo a ser seguido é uma coisa livre. Eu adoro o laboratório de humanidades, as vezes é complicado ir parece que aparecem coisas para fazer bem na hora que eu estou saindo, mas o meu compromisso com o laboratorio de humanidades é muito mais importante.
R.S.S.

Para saber mais sobre o Laboratório de Humanidades:

Site: http://www.unifesp.br/centros/cehfi/labhum.htm

Blog: http://labhum.blogspot.com


*Yuri Bittar
Designer, fotógrafo e historiador
Atualmente ministra o curso A fotografia e a Cultura Visual
Site pessoal: www.yuribittar.com

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Alice no País das Maravilhas – e nós no país dos absurdos

Escrito por Yuri Bittar, monitor do LabHum, com reflexões de todo o Laboratório de Humanidades

Lendo “Alice no País das Maravilhas” percebi que Lewis Caroll não falava de um lugar imaginário, mas na verdade se referia á sociedade em que vivia. Recorrendo á alegorias ele foi a fundo na dificuldade que as pessoas parecem ter em entender umas ás outras.

No Laboratório de Humanidades lemos recentemente este clássico da literatura infantil e também universal, intitulado “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Caroll. O título original é “Alice's Adventures in Wonderland” ou "Alice in Wonderland". Foi escrito na Inglaterra em 1865. Para mais detalhes sobre o livro consulte a Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Alice_no_pa%C3%ADs_das_maravilhas

As reflexões que faço aqui são fruto da minha leitura e também das discussões no Laboratório de Humanidades, portanto, de certa forma, este é um texto coletivo e agradeço aos colegas do LabHum.

Numa alucinante viagem, por lugares estranhos e na companhia de criatura impensáveis, Alice tem que resolver diversos problemas, sozinha , e para voltar para casa, buscar a saída dessa espécie de labirinto aparentemente insano que é o País das Maravilhas.

Mas, se observarmos com cuidado, vamos perceber que o País das Maravilhas não é muito diferente do mundo real. Tirando o fato dos seres de lá serem cartaz e animais falantes, ao analisarmos seus atos, percebemos que são como os atos ditos normais das pessoas até hoje, mesmo aqui do outro lado do Atlântico e tantos anos depois.

Pessoas levemente insanas, que agem de forma um tanto sem sentido, se agridem, se tratam mal, participam de jogos sem objetivos, vagam sem rumo e fazem ameaças que geralmente não cumprem. Assim também não somos nós? Infelizmente parece que sim. E o Gato então? Ele aparece e desaparece, faz o que bem entende e não pode ser capturado. Apesar de dizer que todos são loucos, inclusive ele mesmo, na verdade o bichano parece ser o único sensato, além de Alice. Ele é o único que parece entender o que está acontecendo plenamente, além de ser praticamente onipresente e interferir nos acontecimentos sem ser afetado pelos outros. Ou seja, o Gato que Rí, ou Gato de Cheshire, simplesmente parece representar o próprio Lewis Caroll. E quantas vezes não nos sentimos mesmo os únicos sensatos em um mar de loucos? Outras vezes pode ser até o contrário, e aí dizemos que todos são loucos.

É um país de maravilhas este que Alice visita? Ou apenas um país normal? Bom, uma coisa que é diferente, para Alice, é que ela está só. Não há adultos responsáveis para lhe dizer o que fazer, como ela estava acostumada. Ela tem que resolver tudo sozinha. No início ela tenta seguir a lógica passada por seus pais, como ler o rótulo antes de beber de um frasco. Mas logo ela vai formando uma maneira própria de agir, se adequando ao mundo em que ela está.

Em certos momentos ela se cansa da loucura e incoerência das pessoas daquele lugar. Acontece que normalmente uma criança não tem que se envolver nas loucuras dos adultos, nos problemas e conflitos, permanecendo protegida. Será mesmo? E por aqui? Quantas crianças tem que se virar sozinhas, sejam elas abandonadas ou apenas mau cuidadas por pais relapsos? Elas tem que trabalhar, pedir, e acabam roubando e se drogando. Enfrentam, enfim, as loucuras da cidade e a confusão e violência dos adultos, tendo ou não habilidade para aguentar esse fardo, assim como Alice. Mas nestes casos não se trata de um sonho e o final normalmente não é feliz.

Alice se depara com “pessoas” que agem de forma estranha. Ela não entende o que eles querem. Por que o Coelho tem tanta pressa? E o Chapeleiro e a Lebre, o que fazem afinal? E qual é o objetivo do jogo de críquete com a Rainha? E como podem jogar de forma tão confusa? E o julgamento então, que sentido tem?

Mas se pensarmos em nosso mundo, que eu chamaria de “País dos Absurdos”, veremos algo muito diferente disso? Quantas notícias inacreditáveis vemos diariamente na TV. E pessoas agindo de forma estranha e incompreensível, que vemos constantemente pela cidade? Outro dia desses me deparei com uma estranha senhora, que apelidei cá para mim de “louca das vassouras”. Já outras vezes me deparei com esta estranha figura, que anda de ônibus carregando sempre uma ou mais vassouras, ás vezes só o cabo, andando sem parar, de lá para cá, no ponto de ônibus, dando um chega para lá em quem se colocar no seu caminho. Depois, quando chega o ônibus ela tem que ser a primeira a entrar, ocupa dois assentos e fica resmungando todo o caminho.

Lewis Caroll realmente escreveu um livro profundo, que permite uma série de reflexões, mesmo após um século e meio. Ele fala da dificuldade das pessoas em se entender mutuamente, e isso é atemporal e acontece em todos os lugares. Nos faz pensar realmente, e isso é muita coisa.

Yuri Bittar
Designer, fotógrafo e historiador
Atualmente ministra o curso A fotografia e a Cultura Visual
Site pessoal: www.yuribittar.com

Memórias Póstumas de Brás Cubas: Só um morto pode falar honestamente ?

Escrito por Yuri Bittar, monitor do LabHum

Reflexões sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas - Só um morto pode falar honestamente ?

Estou lendo este clássico da literatura brasileira, que incrívelmente ainda não tinha lido. E agora entendo porque de sua importância. Ainda não o terminei, mas me parece haver uma importante reflexão sobre as amarras que nos impedem de ser honestos, até com nós mesmo.

Esse é o livro da vez no Laboratório de Humanidades (UNIFESP). Conforme eu for lendo e participando das discussões no LabHum, vou postando aqui minhas (e do grupo) reflexões sobre o livro.

Uma outra frase surgiu no laboratório; "só um morto pode entender a vida?" Brás Cubas fala com total sinceridade sobre sua vida. Confessa coisas que dificilmente alguém falaria. O morto, além de poder falar a verdade pois nada teme, ainda tem a visão de fora necessária para poder compreender a própria vida.

Como Dostoievski , Machado de Assis faz um exercício para simular a honestidade. O Idiota é sincero assim como Brás Cubas. Eles rompem com o comum (será tão incomum ser honesto?). Brás Cubas não se limita ao “politicamente correto”. Num momento ele não se conforma de uma bela moça ser coxa. “se bela por que coxa, se coxa por que bela?” Como disse o Prof. Rafael, ele não usa a “mentira estabelecida” ao falar o que realmente pensa.

Brás Cubas nos coloca diante do vortex da vida. Da questão primordial do sentido da vida, de por que somos movidos, de como justificamos nossa existência. Se a vida é um circulo ou uma expiral, uma realidade sem saída ou um vortex incontrolável. Afinal, por que se importar com os outros ? A consciência é apenas o medo de pessoas medíocres ? Ele propõe também a idéia de decidir não ter filhos, e confessa ter tido uma vida sem grandes motivações.

Machado escreve com enorme leveza e toques de humor, mas fala de questões delicadas e profundas, e deixa abertas feridas sociais, expõe os dogmas morais e os questiona.

Essa leitura tem provocado acaloradas e profundas discussões no grupo. Creio que desde que participo, há mais de um ano, esse foi o livro que mais nos tocou.

Link para o livro no Domínio Público: www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1923

Link para áudio book: http://www.bibvirt.futuro.usp.br/content/view/full/1947

Yuri Bittar
Designer, fotógrafo e Historiador
www.yuribittar.com

Frankenstein de Mary Sheley e nossos frankensteinzinhos

Escrito por Yuri Bittar, monitor do LabHum

No Laboratório de Humanidades esta semana terminamos de ler Frankenstein, de Mary Sheley, escrito em 1817. Vou relatar aqui minha opinião sobe o livro, mas que é totalmente influenciada pelos colegas do laboratório e a eles credito a co-autoria deste artigo. A primeira coisa que precisamos esclarecer é que Frankenstein é o nome do cientista “maluco” Dr. Victor Frankenstein, o monstro não tem nome, apesar que podíamos chamá-lo de “Junior”. Aliás, a criatura do Dr. Victor, além de não ter um nome, não tem praticamente nada. Nasce já adulto, porém sem nenhum tipo de amparo, jogado á todas as dores do mundo, sentindo frio sem saber o que era o frio, que podia se aquecer, com fome sem saber que existia alimento, com sede sem saber o que era água e só, sem saber que podia procurar outras pessoas. Ou melhor, não podia, pois ele também era desprovido da aparência humana. O que ele tinha era uma aparência insuportável e ninguém podia olhar para ele sem sentir horror.

Parece que a questão primordial que o livro suscita é; quem é a vítima? Dr. Victor Frankenstein deu vida á criatura, e em seguida a abandonou á própria sorte. Ou o monstro, que matou pessoas inocentes por vingança?

Como alguém abandonado e odiado ao nascer poderia respeitar a vida dos que o desprezaram? E os nossos milhares frankensteinzinhos de rua, as milhares de crianças de rua, que apesar de não terem uma força descomunal ou uma aparência horrenda nos colocam medo? Segundo as contas mais otimistas aproximadamente 1800 crianças vivem nas ruas apenas da cidade de São Paulo. Podem ser muito mais, alguns falam em 4 mil.

O ódio. Dr. Victor odiou sua criatura ao vê-la. A criatura odiou o mundo, que a tratou da pior forma. O mundo odiou a criatura, talvez o maior monstro do cinema, dos desenhos, etc... É um livro sobre o ódio, ou sobre os perigos da ciência, a prepotência humana ou o desprezo? Tudo isso penso eu. Por isso é um livro muito atual, próximo de completar 200 anos. Seria porque o ser humano pouco mudou e continua insistindo nos mesmos erros ?

Mas os clássicos gregos também mantém a atualidade, depois de milênios. Mary Sheley escreveu um livro que se tornou referência, trazendo de volta o mito de Prometeu, que foi punido por Zeus por dar o fogo ao Homem, e podemos associá-lo também a Lucífer, decaído por não aceitar as ordens de Deus, Ícaro, que, não bastando voar, quis voar cada vez mais alto, até que o sol derreteu suas asas e ele despencou para a morte, ou ainda Adão e Eva, que descumpriram a ordem de Deus, de não comer da árvore do conhecimento e foram expulsos do paraíso, assim como Dr. Victor, que não satisfeito com a vida perfeita que tinha, criou o mostro que a destruiu, enfim, uma trama que explora os limites da atitude humana e as conseqüências das ações desmedidas, que não respeitam os limites humanos ou divinos. Um livro ótimo, que a colocou para sempre entre os grandes escritores da humanidade.

Mary Sheley não sabia, mas sua obra também pode ser comparada à criação da bomba atômica. O sonho de que a ciência traria infinitos benefícios para toda a população do mundo, acabou diante da constatação do horror que ela podia causar.

Leia mais sobre esse livro: http://pt.wikipedia.org/wiki/Frankenstein

Yuri Bittar
Designer, fotógrafo e Historiador
www.yuribittar.com

O Sentido da Vida, de Mitch Albom

Escrito por Yuri Bittar

Só podemos dar sentido á nossas vidas dedicando-nos a nossos semelhantes e a comunidade, e nos empenhando na criação de alguma coisa que tenha alcance e sentido. (Morris Schwartz)

No LabHum estamos terminando de ler o livro ``A ultima grande lição - O Sentido da Vida” de Mitch Albom. O mais engraçado é que este livro é um best-seler norte-americano, e por isso enfrentou muito preconceito do grupo, assim como aconteceu com o próprio Prof. Dante, que teve o livro indicado por um amigo, mas demorou muito tempo para lê-lo e indicá-lo para nos. E depois de tanta resistência, o livro se mostrou realmente muito bom, agradando muito uns, sendo desaprovado por outros, mas não passou indiferente para ninguém.



Para mim ele marcou especialmente. Não apenas pelo seu conteúdo, mas principalmente pelo que ele resgatou dentro de mim. Primeiro a vontade de ser professor que estava meio deixada de lado, e já estava voltando, mas com essa leitura ganhou força. O livro me reforçou também o prazer em ser aluno. Também me lembrou de pessoas queridas, professores de tanto tempo atrás ou atuais, ou ainda pessoas que foram como professores para mim, me trazendo lições de vida, conscientemente ou não.



O livro também me fez pensar se estou no caminho certo, se estou encontrando felicidade e paz, se estou me desapegando das coisas e me apegando mais as pessoas. Se estou fazendo coisas das quais não me arrependerei quando chegar ao fim da vida, se estou fazendo algo de que me orgulho realmente e se estou ajudando as pessoas. Me fez pensar também se estou dando valor aos que me amam e se estou demonstrando que também os amo, por que eu os amo mesmo, mas será que eles sabem ? Eles precisam saber para poderem ser felizes e saberem que seu amor e retribuído.



Algo que tornou a leitura do livro ainda mais forte foi a dor. Sim, a dor, pois li o livro com dores. Terminei de ler o livro em plena crise, doente, com dor. Acompanhando a doença e morte de Morrie, a minha dor, embora insignificante diante da de Morrie, ajudou a dar realismo a leitura. Sofri. Sofri por Morrie, por nos todos e pro mim mesmo. No mesmo dia que terminei de ler o livro, descobri que tenho uma doença gástrica. Até um dia antes eu podia comer qualquer coisa, em qualquer quantidade, e nada me fazia mal. Mas agora, como Morrie, não posso mais comer tudo que quero. Li doente sobre a bela morte de Morrie.



``O Sentido da Vida`` nos faz entender quais são as questões importantes na vida, e como lidar com elas. Nas livrarias ele esta na seção de auto-ajuda, ou as vezes em psicologia. Mas vejo ele mais como literatura. O que lemos e sobre a vida de dois homens, que se reencontram num momento especial, que e o fim da vida de um, e poderá ser um recomeço para o outro.



Leia esse livro, nem que seja para não gostar, mas pelo menos é uma oportunidade de parar e pensar. Pensar no que há de mais importante na nossa vida.

O Idiota, de Dostoievsky

Reflexão de Yuri Bittar (monitor)

Amigos leitores. Participo de um grupo genial chamado “Laboratório de Humanidades” na UNIFESP. Este é um grupo que se reúne semanalmente para discutir a leitura de livros. O incrível é esse trabalho ser realizado em um campus tipicamente da área da saúde, e termos um grupo muito heterogêneo, que vai desde historiadores até médicos. Passando por docentes, profissionais e alunos. Atualmente estamos discutindo O Idiota, de Dostoiévski, e estas são as minhas impressões gerais dos conceitos contidos no livro, “chupando” um pouco do que os outros participantes observaram, portanto este não é um texto só meu, e sim uma construção coletiva e que pretendo agora compartilhar com mais pessoas.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi o fato do Príncipe ser o único que não está “maquinando” o tempo todo. Ele parece viver momento, ou no máximo pensar apenas nos próximos acontecimentos.

Ao final do livro eu já vejo como problema central do livro a comunicação, ou seja, como se fazer entender por pessoas que não podem e não querem ver as coisas como você ? Esta falha na comunicação entre as pessoas parece ser decorrente de uma série de fatores, mais alguns no caso do nosso herói, mas destaco um, a falta de paciência. Aí parece estar uma questão fundamental do livro, pois o Príncipe parece ter uma paciência sem fim com todos, e poucos tem a mesma consideração por ele. Será porque o Príncipe tem um amor ilimitado por todos ? Afinal os poucos que tem paciência com ele são exatamente os que o ama ?

Eu me pergunto se a intenção do autor não foi exatamente essa, colocar em discussão a superficialidade das relações sociais, e o choque causado por elemento que vê os outros mais profundamente.

Quero agora colocar mais algumas inquietações geradas pelo livro, em mim e nos outros participantes do laboratório:

· Cogitamos que o Príncipe parece viver uma outra realidade, mas o que é realidade, e será que na verdade ele não vê a realidade muito melhor que os outros, por ser menos preso a preconceitos e visões fáceis ?

· Consequentemente devemos nos perguntar, há uma falha na comunicação ? Eu particularmente vejo que ele está em outro tempo, em uma lógica levemente diferente, e, além dele conhecer os códigos da sociedade, tem também uma linguagem própria ? Como ele poderia expressar verbalmente idéias que estão além do alcance dos outros, de uma maneira inteligível.

· De certa forma o Príncipe não está muito preocupado em ser entendido, mas sim em entender.

· Ele definitivamente vive em uma dimensão de tempo diferente, ele parece dispor de bem mais tempo, pois dedica muita atenção à todos.

· Outro questionamento que fatalmente surge é; porque esse final, porque o Príncipe regride em sua doença e se retira da consciência, porque ele é, digamos, derrotado ? Bom, creio que seria o mesmo que perguntarmos qual é a moral da história ? Akira Kurosawa, que filmou O Idiota em 1951, disse “...é o escritor (...) que escreve com mais honestidade sobre a existência humana. (...) não há nenhum outro autor (...) que seja tão bom, tão delicado”. Que triste, se Dostoiévskientende tão bem o humano, e a figura pura do Príncipe tem um final tão trágico, o que será de nós, qual a esperança que resta ?

· Mas não vejo assim dessa maneira tão trágica, acho que o autor quis questionar até que ponto uma pessoa pode suportar amar tão grandemente, acho que essa é a resposta.

· Por fim creio que a maioria das pessoas se apaixona pelo Príncipe, mas poucos são como ele, ainda mais no nosso tempo.

· Talvez você me pergunte, mas que conclusões são essas que eu chego, mais perguntas que respostas ? Hora, devemos desconfiar dos livros que nos trazem muitas repostas, e confiar nos que provocam questionamentos. Acho que O Idiota é ótimo por nos colocar diante de questões da maior relevância, fazendo isso de maneira totalmente crítica. Acho que alguns leitores desse livro podem até se envergonhar de si mesmos, ao se identificar com outra personagem que não o Príncipe.